Similares: Lower, Black Flag, Parquet Courts, Savages
Texto de alguns meses atrás publicado no meu tumblr, resgatado para dar início ao 4 Track com um disco que merece ser posto em destaque - mesmo que todo mundo já tenha o escutado a uma altura dessas.
Vindos de uma crescente e digna de atenção cena punk Dinamarquesa, o
Iceage é o quarteto que tem função de cartão de visita, é a banda que
está à frente na cena e que, com suas nuances, representa porque tal
grupo de bandas merece atenção. O debut raivoso de 2011 já deixava claro
porque eles eram tão especiais: punk caótico e cheio de assaltos de
guitarras, energia rápida e descontrolada do hardcore, texturização de
noise rock e um ar sombrio, delusional, que remete ao post-punk mais
primal do fim dos anos 70.
New Brigade, ainda que inebriante, soou para mim como um
álbum-promessa, daqueles que chamam nossa atenção para a banda com a
esperança que ela explore melhor o potencial no futuro. Quem apostou no
disco estava certo: o Iceage não foi um estouro efêmero e seu segundo
registro, You’re Nothing, entrega a banda indo a fundo nos moldes da
cena que fazem parte.
Certamente, não são os primeiros nem serão os últimos a caminharem
entre o hardcore e o post-punk e se aproveitatem da catarse emocional
dos dois, mas fazem isso com uma competência e um senso de timing que é
crucial para tornar You’re Nothing o tipo de disco destruidor que vai
pra sempre figurar em nossas coleções, mesmo depois que a raiva
adolescente evapora dando lugar ao conformismo da vida adulta. Na
verdade, se você é um adulto disposto a sentir essa obra, saiba que ela
vai te transformar (temporariamente apenas, talvez) naquele adolescente
desmedido que um dia você foi.
Não é complicado entender porque o apelo do Iceage é tão contagiante,
já que eles, quase que friamente, notaram a essência dos gêneros pelos
quais transitam e pegaram o que tinha de mais potente em cada um.
Durante muito tempo o hardcore violento esteve ligado à crítica política
e às ideologias, da mesma forma o post-punk sempre foi um representante
da introspecção e da depressão, na forma de um experimentalismo nem
sempre raivoso. You’re Nothing aperfeiçoa New Brigade nesse quesito: o
disco é uma metralhadora de raiva interlaçada com depressão, o ataque
violento é reflexivo, a agressividade é usada para se ferir e se
condenar pelo próprio estado mental.
Os berros entoando “PRESSURE! PRESSURE! OH GOD, NO! CAN’T TAKE THIS PRESSURE!” na faixa de abertura
deixam claro sobre o que é o disco: desespero, depressão, negatividade e
o caos a que todos esses sentimentos nos levam. O vocal rasgado e
desolado de Elias Rønnenfelt se mostra tão versátil quanto a
instrumentação da banda: se eles, como punks, conseguem ir além do
previsível criando melodias e quebras entre texturas de guitarras (com
direito a efeitos de distorção, sequencias de percussão militar e
pianos); Elias, como vocalista de uma banda punk, consegue intercalar os
berros rasgados com melodias e entonações que vão além de seu potencial
vocal - deixando, nesse contexto, o ar de desespero e descontrole maior
ainda.
A abrasividade vocal deixa muitas letras difíceis de decifrar, o que
não quer dizer que não possamos sentir o clima pelos outros elementos
das canções - “where’s your morals?” entoado com desesperança na
militarista “Morals” nos faz enxergar um cara a beira da morte devido à
alguma desilusão, existem espaços vazios no disco que nos permitem
preencher com a imaginação (essa já moldada, claro, pelos indícios da
negatividade constante). A melhor música, “Burning Hand”, deixa linhas
soltas no ar - “deep within”, “a burning hand”, “drifted in disgrace and
suffering” - mas a maneira que o todo se desenrola força o sentimento
opressor tomar conta e o principal, a noção de que a faixa é o retrato
de uma condição mental destruída, invadir todo o espaço. “DO YOU HEAR
ME?”, finaliza Elias com uma expressão auto-mutiladora.
A grande coisa em torno de You’re Nothing, então, é como a catarse
típica do punk é tão bem aplicada para tornar a alienação emocional
apelativa, contagiante e essencial. É uma porta de acesso para recantos
sombrios da mente, quando o desespero e o sofrimento ultrapassam
qualquer racionalidade e atingem um estado primal, tão violento que é
quase transcedente. Como dito, eles não são a primeira banda a tentar
tudo isso, mas são a que, no momento certo, do jeito certo, conseguiram
explorar o melhor da proposta. É como estar preso numa versão mais
danificada de “Depression” do Black Flag, com 28 minutos de duração e
espaços para respirar no meio das turbulências. A anos um disco punk tão
agressivo não me comove como esse daqui, não há porque tirar essas 12
faixas do repeat nos próximos meses - é o que acontece quando promessas
se cumprem.
8.8 [RECOMENDADO]

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